quinta-feira, 22 de junho de 2017

João Paulo Teixeira / Hemingway com Ava Gardner



Hemingway com Ava Gardner


Por João Paulo Teixeira
EM 23/07/2012 ÀS 11:20 PM

Burt Lacaster / Ava Gardner
The Killers
1946
Ernest Hemingway é o escritor americano que melhor conceitualizou a “geração perdida” definida por Gertrude Stein. Isto porque, Hemingway descreve com extrema precisão homens que saíram das guerras e conflitos bélicos do século 20 para se embrenharem nas trevas do padecimento físico e psicológico. 
Para celebrar um tratado minúsculo em tamanho, mas grande em abrangência literária, o bom diretor Robert Siodmak fez “The Killers”, em 1946,  um filme fantástico ao estilo “noir”. Os primeiros dez minutos reproduzem quase literalmente o conto homônimo de Hemingway, escrito em 1927. 
Dois assassinos invadem uma vila adormecida no interior dos Estados Unidos para matar o recluso imigrante sueco Swede (Burt Lancaster). Estranhamente, no conto e no filme, o protagonista não esboça resistência e abraça sua morte sem pestanejar. 
O espectador fica na iminência cruel de imaginar a razão, pouco natural, para que Swede abandone o desejo de viver. Ao ser anunciado que, em poucos minutos, receberia oito tiros de revólver, ele apenas responde ao colega que trabalha com ele como frentista: “Não vou fugir. Estou cansado de me esconder”. 
Depois que o filme deixa o roteiro “escrito” por Hemingway, aparece a imaginação fértil dos roteiristas Anthony Veiller e John Huston, o mesmo que fez e dirigiu “O Falcão Maltês”. 
Os dois inventam a personagem Riordan (vivido pelo ator Edmon O’ Brien), um dedicado investigador de uma companhia de seguros, que para descobrir uma apólice avantajada — avaliada na época em 2500 dólares —  vai atrás do passado da vítima. (Frise-se que, durante o filme, um personagem enche o tanque de um Cadillac modelo seis cilindros com apenas oito dólares. Ou seja, 2500, à época, representava uma quantia considerável). 
Na sequência do roteiro, parece que Veiller e Huston leram e filmaram, ao seu modo, “O Sol Também se Levanta”, primeiro romance de Hemingway. Ele retrata a história de um pugilista que se envolve com uma mulher de reputação duvidosa. No livro, é uma enfermeira que tem a aparência que o leitor o desejar. Já no filme, a beleza fica por conta da belíssima Ava Gardner. 
É possível que Hemingway — que teve a maioria de suas obras traduzidas no Brasil pelo escritor goiano José J. Veiga — tenha gostado, e muito, de ver Ava Gardner inserida em um dos seus textos mais notáveis. 
Há informações prefaciais apontando como biográfico o romance pioneiro do escritor norte americano em visita à Espanha. Nele, o jornalista Jake Barnes é emasculado por um ferimento de guerra e nutre um amor platônico por uma enfermeira que o rejeita no leito de morte.  
Hemingway acostumou-se à vida de viagens e usou parte de suas aventuras como pano de fundo para histórias na África, na Europa e em Cuba. Seu livro mais célebre, que o levou ao Nobel de Literatura em 1954, mostra figurativamente o encantamento do escritor com o regime socialista implantado na ilha caribenha. O desfecho totalitário do modelo econômico e social, aliado a terrível depressão de Hemingway, resultou — anos depois — no suicídio do escritor com um balaço disparado na própria face por uma espingarda usada comumente para caçar elefantes. 
No filme de Siodmak, há poucas tragédias, mais possui um talento igual aos livros de Hemingway. No que se refere aos flashbacks, “Os Assassinos” está um passo além de “Cidadão Kane”, considerado pelo respeitável “American Film Institute” como o melhor filme estadunidense de todos os tempos. 
Enquanto “Cidadão Kane” se centra no roteiro não linear, na passagem meticulosa do tempo, nos planos detalhes inventados por D.W Griffith e no “Macguffin” verbal de “Rosebud”, a obra prima de Siodmak prende o espectador ao entregá-lo, a cada cinco minutos, uma peça de um intrincado quebra-cabeça que só é montado no final da trama. 
O roteiro, bem montado por Anthony Veiller, aliado à fotografia de Elwood Brendell e a música instrumental e retumbante do húngaro Miklos Rozsa, reforça a ligação do incansável agente de seguros — não como personagem, mas como espectador privilegiado da história de Swede. 
Para cristalizar o elemento fílmico na narração da história de Hemingway, é possível ver o investigador sentar-se em uma fila de cinema, poucos minutos antes do embate final. A câmera se posiciona em primeiro plano e, como se fossem os olhos da personagem principal, enxergam a biografia mambembe de Swede. 
Mais de três décadas depois, outro gênio do cinema americano, Stanley Kubrick, usou o mesmo fenômeno de Siodmak em seu épico “Barry Lyndon”, de 1975. Na trama de Kubrick, o personagem central Redmond Barry é mostrado, concomitantemente, como vivente e plateia à sua própria escalada rumo a aristocracia austríaca. 
Em um dos momentos que Barry se envolve em uma luta corporal em meio à guerra franco-prussiana, Kubrick também posiciona a câmera à altura dos olhos do ator Ryan O’Neal. Cada soco ou tiro de canhão é direcionado não a Barry, mas à plateia.   
O fenômeno causa tanta empatia que é praticamente impossível abandonar os filmes — tanto o de Siodmak quanto o de Kubrick — pela metade, mesmo depois de assisti-los pela enésima vez. 
Além da boa qualidade técnica, “Os Assassinos” é a consagração do gênero “noir”.  É a clara — e pioneira — materialização das razões que tornaram o modelo popular e como, anos depois, o gênero foi ramificado em dezenas de temáticas até desembocar nos populares filmes de ação da década de 1990. 
O gênero “noir”, em sua essência, é a prova que queremos a ação sem nos desprender da segurança. É um filme fantástico em todos os aspectos. 


quarta-feira, 21 de junho de 2017

Luiz Ruffato / Meus romances preferidos



Meus romances preferidos

Existem dois tipos de listas: as necessárias e as inúteis, sendo que em muitos casos, dialeticamente, as necessárias tornam-se inúteis e as inúteis, necessárias



LUIZ RUFFATO
2 DEZ 2014 - 17:29 COT



Não sei quando começou a necessidade de fazer listas, mas posso imaginar nosso antepassado mais remoto riscando na parede da caverna, à lua de uma tocha, signos que indicavam quanto de alimento havia sido estocado para o inverno que se aproximava ou, como somos competitivos, a relação entre nomes de integrantes da tribo e o número de caças abatidas por cada um deles.
Se formos propor uma hermenêutica acerca do tema, talvez possamos afirmar que existem dois tipos de listas: as necessárias e as inúteis, sendo que em muitos casos, dialeticamente, as necessárias tornam-se inúteis e as inúteis, necessárias. Tomemos dois exemplos. Todo mês, enumero as coisas que faltam na despensa de minha casa antes de me dirigir ao supermercado: essa lista arrolo na categoria das necessárias. Por outro lado, há pessoas que anotam suas metas para o ano que se inicia, começar a fazer ginástica, parar de fumar, cortar em definitivo o açúcar, ser mais solidário, menos intolerante: essa, elenco na categoria das inúteis...
Liev Tolstói


Feitas as compras, a lista do supermercado, necessária, torna-se então inútil. A lista contendo nossos desejos de sermos melhores para nós mesmos e para os outros, embora inútil, pois dificilmente as cumprimos, convertem-se em necessárias, porque estabelecem um vínculo com o futuro, e projetarmo-nos é uma forma de vencer a morte.
Tudo isso, para justificar o que se segue. Ninguém me perguntou, mas resolvi organizar uma lista dos melhores romances que li em minha vida – escolhi o número vinte, não por motivos místicos, mas porque talvez, pela amplitude, alinhave, mais que preferências intelectuais, uma história afetiva das minhas leituras. Enquadro-a na categoria das listas inúteis, mas quem sabe, se consultada, municie discussões, já que toda escolha é subjetiva e aleatória, ou, na melhor das hipóteses, suscite curiosidade a respeito de um título ou de um autor. Ocorresse isso, me daria por satisfeito.
Os 20 melhores romances, por ordem alfabética:
Anna Kariênina, de Liev Tolstói (1828-1910) – Publicado em 1877, traça um painel da sociedade russa do século XIX. Tem a melhor frase de abertura de uma narrativa de ficção, verdadeira aula de teoria literária: “Todas as famílias felizes são iguais. As infelizes o são cada uma à sua maneira”. A edição da Cosac Naify conta com excelente tradução de Rubens Figueiredo.
Berlin Alexanderplatz, de Alfred Döblin (1878-1957) – Lançado em 1929, acompanha a trajetória do desajustado Franz Biberkopf pelas ruas de uma Berlim caótica do período entreguerras,. A vertigem de um mundo em colapso expressa-se de maneira magnífica numa narrativa que se quer, ao mesmo tempo, objetiva e subjetiva. Editado pela Martins, com tradução de Irene Aron.
Cem anos de solidão, de Gabriel García Márquez (1927-2014) – Em 1967, o povoado de Macondo, situado num país qualquer da América Hispânica, torna-se universal. Ali, se desenvolve a saga dos Buendía, um ciclo interminável de histórias cujos protagonistas vivem no tênue limite entre real e fantástico. Publicado pela Record, com tradução de Eric Nepomuceno.
Miguel de Cervantes

Dom Quixote, de Miguel de Cervantes (1547-1616) – Composto por dois tomos, o primeiro lançado em 1605 e o segundo dez anos depois, trata-se da obra mais completa da história da literatura universal. Paródia dos romances de cavalaria, ilustra à perfeição o eterno embate entre racionalismo e idealismo. Há várias traduções, mas recomendo a de Sergio Molina, pela Editora 34.
Enquanto agonizo, de William Faulkner (1897-1962) – Embora não seja a mais conhecida das obras do autor, este romance, publicado em 1930, lança luz sobre os Bundren, família pobre do sul dos Estados Unidos, que busca cumprir o último desejo da matriarca. Disponível apenas numa edição de bolso da L&PM, com tradução de Wladyr Dupont.
Ilusões Perdidas, de Honoré de Balzac (1799-1850) – Lucien de Rubempré é um dos mais fascinantes personagens da literatura. Intelectual provinciano, busca firmar-se em Paris no início do século XIX. Egoísta e arrogante, mas também ingênuo, vê seus sonhos ruírem, após descartado pela mesma sociedade que o adotara. Publicado em 1837, possui seis diferentes traduções disponíveis.
Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis (1839-1908) – Dedicado “ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver”, este romance, de 1881, marca a entrada de Machado de Assis no rol dos maiores autores da literatura universal. Cínico e sarcástico, Brás Cubas fala ao Brasil de todos os tempos. Há inúmeras edições disponíveis, das excelentes às péssimas.

Moby Dick, de Herman Melville (1819-1891) – Publicado em 1851, este verdadeiro compêndio de possibilidades narrativas possui uma dimensão épica que nos remete à própria criação do mundo – o tema ultrapassa, em muito, a perseguição da grande baleia branca pelo capitão Ahab. A melhor edição é da Cosac Naify, com tradução de Alexandre Barbosa da Silva e Irene Hirsch.
No coração das trevas, de Joseph Conrad (1857-1924) – Neste libelo anticolonialista, lançado em 1902, acompanhamos o narrador Charles Marlow penetrando no âmago da África Central em busca de um enigmático personagem chamado Kurtz. O que ele encontra é apenas o horror. Há algumas edições disponíveis: recomendo a tradução de José Roberto O’Shea, pela Hedra.

O Grande Gatsby, de F. Scott Fitzgerald (1896-1940) – Romance da era do jazz, publicado em 1925, mostra os bastidores da vida luxuosa da classe média endinheirada da Costa Leste dos Estados Unidos. Por trás da futilidade e da loucura, a solidão e o vazio que prenunciam a tragédia. Há pelo menos sete diferentes versões disponíveis no mercado.
O leopardo, de Giuseppe Tomasi di Lampedusa (1896-1957) – Somente publicado dois anos após a morte do autor, este é o depoimento do fim de uma época, a da decadente aristocracia refinada e parasita. Tem uma das frases mais emblemáticas do exercício da política: “Para que as coisas permaneçam iguais, é preciso que tudo mude”. Fora de catálogo, disponível apenas em sebos.
O morro dos ventos uivantes, de Emily Brontë (1818-1848) – O amor entre a complicada Cathy Earnshaw e o rancoroso Heathcliff ultrapassa as convenções sociais, o tempo e até mesmo a morte. Publicado em 1847, é a narrativa da paixão cega e da vingança a qualquer preço, desenvolvida nos grotões de uma Inglaterra selvagem. Disponível em pelo menos sete versões diferentes.
O mundo se despedaça, de Chinua Achebe (1930-2013) – A chegada do homem branco a uma remota área habitada pela etnia ibo, às margens do rio Níger, desestabiliza a sociedade local, de religião anímica e regras próprias. A introdução do cristianismo desintegra rapidamente algo que durava desde tempos imemoriais. A edição original é de 1958. Fora de catálogo.

O processo, de Franz Kafka (1883-1924) – Romance antecipatório da aniquilação da subjetividade, que caracterizaria o século XX. A força de sua ficção engendrou até mesmo um adjetivo, kafkiano, para designar situações absurdas. Publicação póstuma, de 1925, conta com duas boas traduções, de Modesto Carone e Marcelo Backes, pela Cia das Letras e L&PM.
O vermelho e o negro, de Stendhal (1783-1842) – Egoísta e ambicioso, Julien Sorel usa, sem escrúpulos, seu charme e simpatia para galgar um lugar na exclusivista sociedade francesa pós-napoleônica, com resultados trágicos. Lançado em 1830, é um monumento do realismo psicológico. Recomendo a edição da Cosac Naify, traduzida por Raquel Prado.
Oblómov, de Ivan Goncharóv (1812-1891) – Publicado em 1859, é um retrato da derrocada da sociedade russa. O aristocrata Iliá Ilitch Oblómov, incapaz de tomar qualquer atitude prática na vida, até mesmo de se levantar da cama, assiste seu mundo sucumbir à inércia e à indiferença. Publicado pela Cosac Naify, com tradução de Rubens Figueiredo.
Os Irmãos Karamázov, de Fiódor Dostoiévski (1821-1881) – Lançado em 1879, narra a complexa relação do avaro Fiódor Karamázov com seus três filhos: Dmitri, o primogênito, e seus meio-irmãos, o intelectualizado Ivan e o místico Aleksiei. Esse romance antecipa vários temas que seriam depois discutidos pela psicanálise. Recomendo a tradução de Paulo Bezerra, pela Editora 34.

Pedro Páramo, de Juan Rulfo (1917-1986) – “Vim a Comala porque me disseram que aqui vivia meu pai, um certo Pedro Páramo”. Comala e Pedro Páramo, aos poucos, se fundem nesta narrativa a um só tempo realista e fantástica, construída em fragmentos aparentemente desconexos. Lançado em 1955, é editado no Brasil pela Record, com tradução de Eric Nepomuceno.
Viagem sentimental pela França e Itália, de Laurence Sterne (1713-1768) – Publicado em 1768, é uma narrativa satírica que coloca em xeque a própria forma do romance. Inicia-se abruptamente e termina com uma vírgula, sem sequer alcançar a Itália, objetivo aparente do personagem, se levarmos a sério o título. Tem uma edição pela Hedra, com tradução de Luana Ferreira de Freitas.
Viagens de Gulliver, de Jonathan Swift (1667-1745) – Numa época em que pululavam livros de naturalistas que descreviam terras desconhecidas, o autor imagina seu personagem, Lemuel Gulliver, visitando lugares improváveis, criando, assim, uma poderosa sátira sobre a sociedade europeia. Recomendo a edição da Cia das Letras, com excelente tradução de Paulo Henriques Britto.

terça-feira, 20 de junho de 2017

Luiz Ruffato / Primeiras lembranças

Ilustração de Triunfo Arciniegas, 

Primeiras lembranças

Minha irmã jura que esta história nunca aconteceu. No entanto, eu me lembro dela perfeitamente...

LUIZ RUFFATO
5 AGO 2014 - 12:49 COT


Talvez uma de minhas primeiras lembranças seja uma imagem... Morria de inveja de seu Sebastião Lopes, concorrente do meu pai, também Sebastião, também pipoqueiro. Seu Sebastião Lopes tinha um carrinho de aço escovado estacionado bem na esquina da Praça Rui Barbosa, na calçada do Cine-Teatro Edgard, enquanto meu pai amargava sol e chuva com seu carrinho verde-musgo, na Praça Santa Rita... Quando terminava a missa na igreja de Santa Rita, os jovens saíam correndo para o footing na Praça Rui Barbosa, que possuía cinema e bares... E ficávamos às moscas... Eu não me aventurava para aqueles lados por despeito (afinal, lá era o território do nosso inimigo), mas igualmente por receio... Temia gostar daquele movimento todo, as pessoas girando em torno do coreto em sentidos opostos, moços numa direção, moças noutra, os casais de mãos dadas... E, em especial, inquietava-me o cinema com seus cartazes chamativos...
Aproximei-me então aos poucos. Em frente ao prédio do Cine-Teatro Edgard postavam-se vários rapazes, com pilhas de revistas, as mais diversas, para trocar ou vender. Como quem não nada quer, comecei a frequentar o lugar: caminhava lento namorando as capas com fingido interesse, mas depois corroía-me o remorso e saía correndo, o coração opresso, medo que meu pai me pegasse traindo-o... Com o passar do tempo, tomei coragem e passei a gastar alguns trocados comprando exemplares usados de Combate (uma revista que, creio, tinha como tema a Guerra da Coréia), Tex, Fantasma, etc... Mas o que eu queria mesmo era olhar os cartazes dos filmes em exibição...
Certa manhã, minhas pernas carregaram-me até à banca do seu Caruso, incumbido de adquirir o Jornal do Brasil para um vizinho letrado nosso. Avizinhei-me desatento das portas pantográficas do cinema e me deparei assustado com um enorme cartaz que anunciava para breve “A noite dos generais”, sobre a Segunda Guerra Mundial. Zonzo, tomei uma resolução: nada nem ninguém me impediria de assistir aquele filme. Economizei as moedas que ganhava para fazer mandados no centro da cidade até que, na mágica noite de uma quarta-feira, o ar inundado pelo cheiro de pipoca que emanava do carrinho do seu Sebastião Lopes, me enchi de coragem e esgueirei-me para dentro da escuridão misteriosa. À minha frente, enormes cenas de outros tempos mexiam-se barulhentas – afogava-me em um mundo diverso do meu, tão acanhado e sem perspectivas. A partir desse dia, traí meu pai quase todas as semanas.
                                                                          *****
Mas, não, talvez minha primeira lembrança remonte aos meus três, quatro anos. Muito pobres, morávamos no Beco do Zé Lincoln, um cortiço encravado num bairro de classe média de Cataguases. Lá conviviam operários e operárias, costureiras, vagabundos e prostitutas. Na medida do possível, meus pais tentavam nos proteger das mazelas do século, embora não conseguissem nos poupar das enchentes regulares do Rio Pomba, que todo ano invadia as casas, às vezes nelas instalando-se por noites e dias.
Certa feita, minha mãe incumbiu minha irmã, Lúcia, de visitar a madrinha, que morava no Ibrahim, um bairro bastante distante, quase zona rural na época. Para que não fosse sozinha, ela pouco mais velha que eu, enfeitaram-me com roupa de domingo, e a mão da minha irmã, firme, arrastou-me, carinhosa. Aguardamos pacientes o cata-níquel, e, quando ele parou no ponto, embarcamos. Lúcia, muito segura de si, pagou as passagens... de ida e de volta...
Almoçamos na casa da madrinha e consumimos as horas à fresca sombra das mangueiras, em meio a um profundo silêncio, entrecortado vez em vez pelos latidos dos cachorros, pela algazarra das crianças ou pelo ronco longínquo do motor de um carro. Afinal, resolvemos ir embora. Quando o ônibus encostou na guarita, que marcava o ponto inicial da linha, Lúcia, conduzindo-me, entrou e tentou passar pela catraca. O trocador disse que ela tinha que pagar a passagem, mas ela, indignada, respondeu que já tinha feito isso. Para quem, ele perguntou. Então, minha irmã percebeu que era outro o rosto à sua frente... Desconsolada, desceu, puxando-me... Não possuíamos mais nenhum centavo... Fizemos todo o caminho de volta a pé, cheios de temores, pois escurecia, ela engolindo o orgulho, salivando raiva...
Minha irmã jura que esta história nunca aconteceu.
No entanto, eu me lembro dela perfeitamente...
EL PAÍS




segunda-feira, 19 de junho de 2017

Luiz Ruffato / Conto de Natal




Conto de Natal

Dezembro espreguiça-se nos parabrisas dos irritados automóveis parados no semáforo, bufam buzinas aceleradas


LUIZ RUFFATO
17 DEZ 2013 - 10:20 COT



¡Mire la lluvia!, ¡Mire la lluvia!, a voz trêmula abafada pelos motores dos carros, pelo alarido dos transeuntes um pinheiro caminha apressado em direção a um ônibus, suor escorrendo no rosto, ¡Mire la lluvia!, ¡Mire la lluvia!, a mão esquerda esgrime um enorme guarda-chuva preto, Made in China, outros espalhados sobre a banca, resguardada do sol do início de tarde pela marquise de uma loja de discos, ¡Señora!, ¡Señora!, ¡Mire!, ¡Mire! Dezembro espreguiça-se nos parabrisas dos irritados automóveis parados no semáforo, bufam buzinas aceleradas, nuvens carregadas ameaçam as luzinhas que enfeitiçam a véspera de Natal.
A indiazinha – sem sutiã, os pequenos seios furam a malha fina; negros, os cabelos alastram-se pelo púbis, pelos sovacos, pelas pernas – às vezes incomodava-se com a algazarra, sentia-se sufocada pela gasolina queimada, humilhada com os olhares opacos que a tornavam invisível, com a sua falta de sorte, ¡Basta de konanearme! Pensava até em abandonar aquele tabuleiro mambembe, perder os pés pela cidade, observar as vitrinas, a decoração das lojas, toda aquela gente esbaforida, estos non son mujeres, ni hombres, sino animales, animales, ¿comprendes?¡Mire!, ¡Mire!, o corpo se contrai com as lembranças recentes, catorze, dezesseis horas tocando uma máquina-de-costura industrial nos fundos de um galpão no Bom Retiro, pernas anestesiadas, cabeça leve, prestes a desmaiar, como no soroche, a coreana andando de lá para cá bate palmas, ameaça, grita, Pálí!, Pálí!, não entendia uma palavra, mas conhecia de cor aquela expressão que se nutre de desprezo, sí, ¡animales!, silêncio, nada de olhares vizinhos, nada de cicios, nada de nada, ¡Nada!, berram os ponguitos amontoados pelos cantos, envolvidos em ponchos e retalhos.
Sem os documentos, retidos pelo patrão, ¡Quisiri!, seguiu o rapaz, boa-praça que conhecera comprando camisas para revender no centro da cidade, as araras abarrotando a kombi amarela, ele falou em serviço decente, e insinuou, quem sabe, mais para a frente, se tudo der certo, poderia, por que não?, mas, primeiro, o estoque de guarda-chuvas, que adquirira apostando nas águas de verão, e, diacho!, atrasavam-se, há quatro dias a liberdade das ruas, uma única peça negociada, a velhinha, olhos azuis, por simpatia, ou pena, levara el paraguas, tentou puxar assunto, agradecida, mas não conseguia falar português, entendia mal e mal... ¡Senõr!, ¡Señor!, ¡Mire!, ¡Mire!
De repente, gotas espelhadas coloriram o asfalto quente, e as pessoas buscaram refúgio, um terno-e-gravata aproximou-se e, sem discutir o preço, carregou um guarda-chuva, e vieram outros e outras, uma moça vestindo um tailleur preto, sapatos de salto alto, uma barba ruiva, duas garotas piercing-e-tatuagem, suas mãos encheram-se de notas, novas e amarrotadas, quebradiças e rasgadas, e seu corpo andino abriu-se num sorriso largo, sua pele de bronze arrepiou-se na umidade, vontade de molhar a cabeça na água que desabava do céu de chumbo, !Waca!, e então, ao voltar-se para o lado direito, percebeu, de cócoras, quase sob a bancada semivazia, um papai-noel, a roupa vermelha respingada, almoçando uma quentinha, pensamentos sobrenadando a enxurrada empoçada na boca-de-lobo entupida.
Que chuva!, disse, Que chuva!, repetiu. Ah, se chovesse assim na minha terra... Se chovesse... Os dentes branquíssimos sorveram o vento, Mi tierra... Mi tierra es nada ahora, falou, mastigando as já curtíssimas unhas pretas. O homem, envergonhado por não compreender, levantou-se, com dificuldade, e entrou no McDonald’s. Ao retornar, após jogar a embalagem de alumínio no lixo e usar o banheiro para urinar e fazer um bochecho, a chuva havia cessado. Pôs o gorro, a placa Os melhores preços de importados da praça! Confira! abraçou-o, estacionado junto à faixa de pedestres. Antes de atravessar, buscou a moça e, simpático gritou, Feliz Natal pra você, menina, feliz Natal! Ela, que arrumava os guarda-chuvas restantes, parou, acenou desajeitada e por um momento acompanhou o homem perder-se em meio à multidão.
Luiz Ruffato é escritor

domingo, 18 de junho de 2017

Luiz Ruffato / Um longo caminho a percorrer


Fernando Vicente

Um longo caminho a percorrer

Nem todo estudante se torna leitor, isso é fato. Mas o Estado tem obrigação de possibilitar o acesso ao livro – só após esse contato, é que ele pode saber se gosta ou não de ler


LUIZ RUFFATO
2 DEZ 2013 - 19:24 COT


Não há democracia efetiva sem educação de qualidade. E não há educação de qualidade sem escolas equipadas com boas bibliotecas – os computadores, fundamentais para a vida contemporânea, são, neste caso, apenas ferramentas complementares. Numa democracia efetiva, a educação deve visar a formação para a cidadania – um cidadão é um sujeito que sabe quem é e reconhece, na essência, o outro como igual a si mesmo. Ou seja, alguém que detendo o conhecimento de seus direitos e de seus deveres participa da organização de uma comunidade com interesses convergentes. A leitura de livros, jornais e revistas nos capacita a observar a vida sob variadas perspectivas, fornecendo a base necessária para realizarmos a leitura do mundo.
No Brasil ainda temos um longo caminho a trilhar. É louvável o esforço governamental para prover as bibliotecas escolares públicas de livros por meio do Programa Nacional de Bibliotecas Escolares (PNBE). Só em 2013, foram reservados 66 milhões de reais para a compra de 6,7 milhões de obras literárias destinadas a cerca de 70 mil escolas dos ensinos fundamental e médio. No entanto, segundo dados do censo escolar de 2011, apenas 27,5% das escolas públicas possuem bibliotecas...
Mas, a nossa realidade é ainda mais avassaladora...A maior parte das escolas que possuem biblioteca não tem bibliotecário. Em geral, são designados para “tomar conta da biblioteca” os professores inadaptados para a sala de aula, seja por problemas de saúde ou por não conseguirem lidar com os alunos, ou ainda aqueles punidos por criar atritos com os colegas. Esses profissionais acabam “encostados” em salas empoeiradas e sem ventilação, e, entediados, sem experiência ou empatia, reforçam a imagem do livro como repositório de coisas velhas e desinteressantes.
Já visitei escolas em que a biblioteca permanecia todo o tempo fechada e tive que esperar paciente a chegada da zeladora, guardiã orgulhosa da única chave de acesso a um depósito escuro e fedendo a mofo. Já visitei escolas em que a biblioteca permanecia todo o tempo fechada porque a diretora temia que os alunos estragassem os volumes ao manuseá-los. Já visitei escolas em que os pacotes de livros permaneciam jogados a um canto, envoltos em plástico, lacrados, porque ninguém ali sentira a mínima curiosidade de saber do que se tratava e para que serviam. Já visitei escolas em que a pessoa encarregada da biblioteca confessava, sem se vexar, que nunca havia aberto um exemplar em toda a sua existência...
Nem todo estudante se torna leitor, isso é fato. Mas o Estado tem obrigação de possibilitar o acesso ao livro – só após esse contato, que, mediado por um profissional competente, em geral pode ser extremamente prazeroso, é que ele tem condições de saber se gosta ou não de ler... Já avançamos muito. Há 30 anos, a escola pública jazia destruída pela ditadura militar. E, antes, havia uma educação de qualidade, mas ofertada apenas para as camadas privilegiadas – a taxa de analfabetismo chegava, na década de 1950, a mais de 50% do total da população. No entanto, nossos números continuam catastróficos. Um em cada três brasileiros é analfabeto funcional – não consegue compreender textos simples e nem fazer operações matemáticas básicas; lemos quatro títulos por ano, em média; temos uma livraria para cada 63 mil habitantes...
Só iremos construir uma sociedade mais justa, quando oferecermos a todos, sem exceção, uma educação pública de qualidade, quer dizer, quando dermos oportunidade a todos os brasileiros de se alinharem no ponto de partida, em igualdade de condições. E um passo importante nesta direção é a existência de bibliotecas, e de bibliotecários, em todas as escolas públicas. Assim, certamente estaremos aprimorando nossa incipiente democracia. Porque, ao contrário do que se possa imaginar, democracia não é o mero direito ao voto, mas sim o exercício do voto com consciência. E só vota com consciência quem possui bagagem para interpretar a complexidade do mundo.
Luiz Ruffato é escritor.