quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Vargas Llosa / A morte de Aurora Bernárdez

Aurora Bernárdez e Julio Cortázar
PEDRA DE TOQUE

A morte de Aurora Bernárdez

A vi pela última vez do ano passado. Contava 93 anos e ouvia com dificuldade. Precisava de tempo para terminar uma biografia de Julio Cortázar




FERNANDO VICENTE
Em dezembro de 1958, um amigo peruano da Unesco, Alfonso de Silva, convidou-me para jantar em sua casa, em Paris. Sentou-me junto a um homem magro, muito alto e imberbe, que só na hora da despedida descobri ser Julio Cortázar. Parecia tão jovem que acreditei ser meu contemporâneo, e era vinte e dois anos mais velho do que eu. Sua mulher, Aurora Bernárdez, baixinha, miúda, tinha grandes olhos azuis e um sorriso um pouco irônico, que mantinha as pessoas à distância.
Nunca esqueci a impressão que me causou naquela noite a conversa desse par tão díspar. Pareciam ter lido todos os livros, só diziam coisas inteligentes, e havia entre eles tanta cumplicidade enquanto falavam – passavam a palavra de um para o outro como se fossem dois hábeis malabaristas na corda-bamba – que davam a impressão de terem ensaiado tudo aquilo.
Nos quase sete anos em que vivi na França, nos vimos muitas vezes, na casa deles, na minha, nos cafés, ou na Unesco, onde trabalhávamos como tradutores. Nunca deixei de me admirar com a riqueza de suas leituras, a sutileza de suas observações, a simplicidade e naturalidade de suas maneiras e, também, o modo como organizavam sua vida para ver as melhores exposições, os melhores filmes, os melhores concertos. Era difícil descobrir quem era mais inteligente e mais culto, qual dos dois tinha lido mais, melhor e com maior proveito. Protegiam sua intimidade de maneira implacável –nunca perdiam tempo– e mantinham à distância quem quisesse invadi-la. Sempre tive certeza de que Aurora não apenas traduzia – maravilhosamente, do inglês, do francês e do italiano, como testemunham suas versões de Faulkner, Durrell, Calvino, Flaubert – como também escrevia, mas que se abstinha de publicar por uma decisão heroica: para que houvesse um só escritor na família.

Nunca deixaram de me admirar a riqueza de suas leituras, a sutileza de suas observações
Em 1967 estivemos os três juntos, como tradutores, em um congresso dedicado ao algodão, em Atenas. Durante quase uma semana convivemos no hotel, nas sessões do congresso, jantando todas as noites em restaurantezinhos de Plaka, na visita de um domingo à ilha de Hidra, e ao retornar a Londres (para onde eu havia me mudado) lembro-me de ter dito a Patricia: “O casamento perfeito existe, é o de Julio e Aurora, nunca vi uma inteligência e compenetração iguais em nenhum casal. Temos de aprender com eles, imitá-los”. Poucos dias depois, recebi uma carta de Julio que começava assim: “Sua sensibilidade deve tê-lo feito notar, na Grécia, que não há mais nada entre Aurora e mim. Estamos nos separando”. Nunca na minha vida me senti mais desconcertado (e pesaroso). Naqueles dias de convivência, haviam me parecido ser o casal mais bem ajustado e mais invejável do mundo, porque, com um tato infinito, ambos tinham preparado tudo para dissimular com perfeição a tormenta sentimental que sacudia seu casamento.
Para os amigos de Julio e Aurora, seu divórcio foi um drama, porque a todos parecia que sua união era absoluta e inquebrável, que duas pessoas não podiam se amar e se entender tanto quanto eles. Poucas semanas depois, nos escritórios da Gallimard, em Paris, eu contava isso a Ugné Karvelis, encarregada de literatura estrangeira. “Como é possível, o que pode ter ocorrido para se separarem!”. E nesse mesmo momento vi nos olhos de Ugné uma angústia e uma perturbação muito eloquentes: o que havia ocorrido estava ali, de corpo presente, diante dos meus olhos.

Como albacea literária se encarregou das edições da obra póstuma do autor de ‘Rayuela’
Na próxima vez que vi Cortázar, em Londres, quase não o reconheci. A sua transformação foi a mais extraordinária que já presenciei em uma pessoa. (“Um mutante”, dizia Chichita Calvino). Fizera um tratamento para ter barba e, de fato, ostentava uma enorme, de reflexos avermelhados. Pediu-me que o levasse a um lugar onde pudesse comprar revistas eróticas e falava de sexo e maconha com um descaramento infantil, algo que, no Cortázar de antes, seria inconcebível. Todas as vezes que o vi, nos anos seguintes, continuou me surpreendendo com esse rejuvenescimento obstinado. Ele, que defendia tanto sua intimidade, vivia agora praticamente na rua, ao alcance de todo o mundo, e se interessava por política, assunto que antes lhe dava alergia. (Eu havia tentado apresentá-lo a Juan Goytisolo uma vez e me disse: “Melhor não, é muito político”.) Até assinava manifestos, militava em favor de Cuba e falava da revolução de maneira tão apaixonada quanto ingênua. Sua limpeza moral e sua decência eram as mesmas, certamente, mas, de certa maneira, tornara-se um antípoda de si mesmo.
Acredito que, nos anos que passou com Ugné, sem dúvida foi feliz, no sentido mais material da palavra, e talvez por isso mesmo sua obra literária se empobreceu, perdeu muito do mistério e da novidade que tinha, e eu sempre pensei que a ausência intelectual e sem dúvida também afetiva de Aurora explica em boa parte esse empobrecimento. Por isso me alegrou muitíssimo saber que, anos depois, quando estava já muito doente, houve uma reconciliação entre eles. E que ela tinha ficado como sua inventariante literária, encarregada das edições de sua obra póstuma e de sua correspondência. Como era previsível, Aurora cumpriu essa tarefa com todo o talento, a generosidade e sem dúvida o intenso amor que sempre nutriu por Cortázar.
Depois da separação, passei muitos anos sem vê-la, mas sempre a tive na memória como uma das pessoas mais lúcidas e finas que conheci, uma das que falavam de livros e autores literários com mais delicadeza e conhecimento, dona de uma elegância inconsciente em tudo o que fazia e dizia. No ano de 1990 voltei a vê-la, em Deià. Tinha os cabelos grisalhos, mas, em todo o resto, continuava idêntica à Aurora da minha memória. Subia e descia as rochas maiorquinas com agilidade, e sua casinha estava impregnada em toda parte com a presença de Julio; na salinha onde conversávamos havia uma linda foto dele, tocando trompete. Não só seu corpo havia conservado um vigor juvenil, como também sua mente, sua curiosidade e sua paixão pelos livros eram jovens e contagiantes. Falamos de Georg Grosz, um pintor expressionista alemão, que eu admiro muito e que Aurora, obviamente, conhecia muito bem; de Claribel Alegría, poeta salvadorenha cuja casa parisiense estava sempre aberta a todos os escritores latino-americanos; e se Flaubert ou Balzac descreveram melhor o século dezenove francês.
No verão do ano passado eu a vi pela última vez, no Escorial. Contava já 93 anos e ouvia com dificuldade, mas sua memória era notável e, durante o diálogo público que mantivemos, fiquei maravilhado em ver a quantidade de episódios, histórias e pessoas dos quais recordava com surpreendente precisão, além, é claro, dos livros, entre os quais sempre se movimentou como se estivesse em casa (eram sua casa). “Enfim, vai se animar a publicar o que certamente tem escrito?”, perguntei a ela. Sua resposta foi evasiva e, entretanto, estimulante. “Preciso de cinco anos”, disse-me, com o velho sorrisinho meio trocista de costume. “Para terminar uma biografia de Julio Cortázar.” Falava sério? Teria começado a escrevê-la? Tomara que sim. Ninguém poderia dar um testemunho mais embasado sobre o Cortázar criador das histórias surpreendentes do BestiárioFinal de JogoHistórias de Cronópios e de Famas e de O Jogo da Amarelinha, o romance que mostrou como a maneira de contar podia ser, em si, uma história cativante.
Soube que, em suas últimas disposições, determinou que fosse cremada. Não poderei, pois, levar flores à sua sepultura da próxima vez que estiver em Paris. Mas estou certo de que não se importaria se eu dedicasse, em vez disso, esta pequena homenagem verbal a ela, tão sensível que era para detectar nas palavras os aromas e a beleza das flores mais fragrantes.


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